domingo, 30 de março de 2008

Samba

Saí esses dias, esquema simples, tranqüilidade total. Resolvi dançar. Não danço há tempos, mais ou menos uns dez meses. Coisas da vida. Ter voltado me fez chegar à três conclusões.
Um - Estou enferrujado, mas nem tanto.
Dois - Tenho de voltar a dançar com freqüência urgentemente, isso me faz um bem danado.
Três - Como tem cachorra na noite.

quinta-feira, 27 de março de 2008

A caminho...

Ando pensando muito em estrada. Houve uma época, talvez uma década atrás, em que era raro o final de semana que eu não rodava 400, 500k com sorriso de orelha a orelha. Algumas viagens eram tranqüilas, outras, verdadeiras epopéias, como as 36h dentro de um ônibus, sozinho, sem conhecer ninguém, do Rio ao interior de Pernambuco. Ou tantas outras.
Engraçado que nunca fez nenhuma diferença se viajava sozinho ou com mais gente. Óbvio que era divertido viajar em grupo. Mas eu sempre gostei da possibilidade de viajar comigo mesmo. Sempre fui uma ótima companhia pra mim. Lembro das madrugadas, sempre frias, nesses postos de beira de estrada, o estranho murmúrio que vinha junto com a cerração espessa no meio do nada. Gostava dessas paradas. Me faziam pensar. O espírito errante que se sacode dentro do meu peito há muito está adormecido. Aposentado. Sei que um dia ele volta, sei disso... ele está à caminho. Um dia sei que vou ouvi-lo batendo à porta, me chamando, com a velha mochila de lona pendurada num só ombro, o cobertor enrolado num pedaço de corda, o fones de ouvido pendurados no pescoço. Vou bater a porta sem fazer barulho, como sempre fiz e vou, comigo mesmo, pegar uma cerveja no bar do ponto de ônibus e entrar na condução, apreciando as árvores do lado de fora da janela enquanto converso comigo mesmo e a estrada rola... rola... rola...

quinta-feira, 20 de março de 2008

Pusquê?

Tava lendo a Rolling Stone desse mês. Tem uma matéria daquele moleque que se suicidou em Porto Alegre e deixou cd, desenhos e coisetal. Não ouvi o cd, vi apenas os desenhos que publicaram. Interessantes, mas são desenhos de um garoto de 16 anos, modéstia à parte, eu desenhava melhor aos 16. Podia não saber representar tantas referências naquela época, mas tinha um traço melhor. As músicas não ouvi. Acho realmente duca um moleque com a idade dele compor coisa suficiente pra montar um cd, só consegui fazer isso com quase o dobro da idade dele.
Mas a questão não é bem essa, a genialidade ou não do garoto não vem ao caso... vem ao caso a estupidez do gesto.
Sim, eu sou bronco o suficiente pra achar suicídio uma estupidez. Em determinados casos (muito raros) posso até vir a relevar um pouco, mas não consigo imaginar alguém tirando a própria vida. Sei que sou simplista quando digo isso, mas é meu lado canalha, botequineiro e escroque que grita e não tenho a mínima vontade de dar um "cala-te!"
É falta de putaria.
Sim, falta de putaria. Se eu não quero morrer tão cedo de morte morrida, de morte provocada por mim mesmo então? Nunca! Ainda quero falar muita merda, perder noite de sono, me embriagar horrores, chegar em casa trocando as pernas e comer gente, muita gente.
Pode parecer grosseiro, mas acho que se esse moleque tivesse tido a companhia de uma meia dúzia de ruivas devassas (ou equivalentes) acho q ele não teria se matado. Por muito menos quero viver até os 100.
Sei lá o que se passa no coração das pessoas. No meu, eu sei. Putaria.
Sei ser sério, mas ainda acho que um pouco de libertinagem (no nível que cê conseguir suportar as conseqüências) é o que dá brilho à existência.

domingo, 9 de março de 2008

Facilidades

Um bar, sábado à noite. Mesmo com as respectivas mulheres na mesa, mocinhas vêm e vão, passando ao lado, mas não ao largo.
Incrível como é difícil manter a linha. Às vezes acho que essas meninas de peitos duros e bundas grandes fazem isso por esporte, algo como "Quantos casais nós conseguimos fazer brigar hoje por conta dos caras olhando pra nós". E não há abraço na oficial que dê jeito no aprumar decotes e rebolar à vista dos machos.
E é quase um exercício de estrabismo poder apreciar as beldades sem que algo seja percebido e a discussão comece.
"Se não houvesse uma aliança, seria muito mais fácil", pensa o mancebo, "Se não houvesse uma aliança, elas não se exibiriam" responde o sábio demônio interior.
"Se ela pára na minha frente, 'estrago' ela", torna o moço, "E estraga o casamento", retruca o demônio.
Como? Porque o demônio se faz de anjo uma hora dessas?
Minha cara senhora, o demônio é do mal, e não burro. Ele sabe que, sem possibilidades de se fazer algo errado, ele não tem serventia. Simples assim.
Outro gole na bebida, um abraço na oficial, de quem o moço muito gosta e tudo volta ao normal.

sábado, 8 de março de 2008

Por dentro

O que se passa no interior das pessoas?
Quanta raiva travestida de sorriso, quanto amor expresso em gritos.
É complicado ser alguém. Ser transparente, então, é impossível. Eu sou assim, pelo menos. Meu lombo está à disposição de selas, pelegos, cabrestos e esporas. Minha alma não.
Eu deixo você montar, chicotear e me guiar. Vai lá, não me importo com mais uma viagem, mais um peso, mais uma dorzinha nas ilhargas. Só não pense que estou indo porque VOCÊ QUER, vou porque acho que pode ser divertido, ou porque me é conveniente no momento. Na hora em que eu resolver mudar de rumo, tomo o freio nos dentes, beibe, e não tem chicote que me endireite.
A graça da vida é ir pela contramão com todo mundo achando que acompanho a manada.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Faxina

Tem horas que é bom tirar a poeira.
Desde o final do ano passado, a única coisa que tem ficado empoeirada é essa sacada aqui, de onde eu jogo palavras no ciberespaço. Não é minha primeira sacada, não é minha primeira janela.
Costumam falar de como primeiras vezes são interessantes. Não sei se concordo com isso.
O primeiro gole de cerveja desceu amargo e desagradável, até o dia em que soube aproveitar o prazer encerrado na cevada, no malte e no lúpulo. Uma primeira vez em pé, numa garagem abandonada, meio bêbado e tomando cuidado para que os gemidos da moça não fossem ouvidos pelos donos da casa, que dormiam o sono dos justos, meia janela acima, foram bem mais estressantes e desagradáveis que lençóis cheirosos e motéis baratos que fizeram uma fama a que nem sei mais se ainda faço jus.
O tremor na primeira vez que pisei num palco e brandi um acorde, ou que tive coragem de mostrar uma canção a alguém, são sombras distantes quando gravo algo no microfone vagabundo de meu micro e passo para amigos que vão ser sinceros quanto à suposta beleza de minhas letras e à evidente incapacidade de minha voz.
Nesse meio tempo que isso aqui pegou poeira, essa janela cuja paisagem nunca foi novidade, tanto que ficou tanto abandonada, feito a amante corriqueira que fica semanas sem a ligação do canalha que a conquistou, desempoeirei tantas coisas, que esta prateleira mais recente ficou encardida.
Sei que ninguém vai passar os dedos por aqui para conferir qual o nível de descaso do dono da casa. Porém passei o espanador, caso uma visita apareça, e o cinismo reluz sob os livros que ainda não tive tempo de ler.